A dívida visível dos políticos do Amazonas: O abismo está dentro de Manaus

OPINION

Marcos Santiago

3/20/20264 min read

Na tarde de ontem, dia 18 de março, participei do lançamento do livro A Dívida Invisível do Amazonas: renúncia fiscal, desenvolvimento concentrado e a cidadania suspensa do interior do estado, de Samuel Hanan e Jorge Henrique de Freitas Pinho, realizado no auditório da Escola Superior da Magistratura do Amazonas - ESMAM. A obra apresenta uma tese importante: existe uma dívida histórica do desenvolvimento com o interior do estado. Segundo os autores, o modelo econômico da Zona Franca de Manaus - ZFM concentrou riqueza, infraestrutura e oportunidades em Manaus, enquanto os municípios do interior permaneceram distante desse crescimento.

Em resumo, o problema central seria o abismo entre a capital e o interior. Saí do evento refletindo bastante sobre essa ideia. E quanto mais pensava, mais me convencia de que talvez o diagnóstico ainda não tenha chegado ao ponto mais profundo da questão, uma vez que, é fácil perceber que o verdadeiro abismo do Amazonas não está apenas entre a capital e o interior. Ele está dentro da própria Manaus.

Durante décadas repetimos que o modelo ZFM trouxe desenvolvimento. E isso é verdade em vários aspectos, como por exemplo: crescimento econômico, presença industrial, arrecadação e importância estratégica para o país. Mas a pergunta que quase nunca aparece no centro do debate é, “desenvolvimento para quem?

Quem vive em Manaus sabe que a resposta não é tão simples quanto os discursos costumam sugerir. A maior parte da população não experimentou e ainda não experimenta os grandes benefícios da ZFM. O que muitos recebem são apenas as migalhas que caem da mesa desse polêmico modelo, representado por um sistema de saúde meia boca aqui, uma educação que deixa a desejar ali, uma operação tapa buracos de tempos em tempos. E quando me perguntam se sou favorável ou não ao modelo, respondo que migalha é melhor do que o nada. Principalmente quando conhecemos a realidade da maioria dos estados brasileiros que não possuem uma ZF para chamar de sua.

A realidade demonstra que os ganhos mais expressivos parecem se concentrar em um grupo relativamente pequeno, formado por políticos e empresários que orbitam o poder e o sistema de incentivos. Também, quando me perguntam o que a Zona Franca produz de melhor, respondo que produzimos os políticos mais ricos do mundo.

Pode soar provocativo, mas basta olhar ao redor: uma cidade que abriga um dos maiores polos industriais da América Latina e, ao mesmo tempo, convive com desigualdades profundas dentro da própria capital. 1É Coronel da Polícia Militar do Amazonas - PMAM

Como solução, os autores apontam que o grande desafio do Amazonas é romper a lógica histórica de concentração e levar o desenvolvimento de forma efetiva ao interior do estado. Na visão deles, não basta que a economia cresça em Manaus enquanto a maior parte dos municípios permanece dependente de transferências públicas e com pouca atividade produtiva. O que defendem é a criação de novas cadeias econômicas fora da capital — baseadas, por exemplo, na bioeconomia, no aproveitamento sustentável da floresta e em atividades que possam gerar renda local.

Em outras palavras, a proposta é interiorizar oportunidades, infraestrutura e investimento, para que o desenvolvimento deixe de ser um fenômeno concentrado na capital e passe a alcançar de maneira mais equilibrada a população espalhada pelos rios e cidades do Amazonas.

Mas existe um ponto histórico que levanta uma questão ainda mais séria sobre esse ponto. Se o problema fosse apenas a concentração da economia em Manaus, como explicar o que aconteceu no ciclo da borracha?

Naquele período, a produção não estava na capital. Ela estava no interior, espalhada pelos seringais ao longo dos rios da Amazônia. Mesmo assim, a riqueza se concentrou na capital e nas mãos de poucos, enquanto a maior parte da população continuou distante do verdadeiro desenvolvimento.

Ou seja, mesmo quando a economia nasce no interior, ou voltada para ele como sugerem os autores, o resultado pode ser exatamente o mesmo, a saber, concentração de riqueza e poder em um pequeno grupo da capital. Isso sugere que o problema do Amazonas talvez não seja apenas geográfico ou institucional.

Talvez o verdadeiro problema esteja na forma como o poder econômico e político se organiza ao redor do Estado. Aqui é importante fazer um esclarecimento que muitas vezes se perde nesse debate. Essa concentração de renda nas mãos de poucos não é uma consequência natural do capitalismo ou do liberalismo econômico. Pelo contrário. Em um ambiente de mercado realmente livre, ou mais livre possível, a prosperidade tende a surgir da inovação, da produtividade e da competição — e não da proximidade com o poder político.

O que frequentemente vemos em sistemas como o nosso é algo diferente: um capitalismo distorcido, dependente de favores estatais, incentivos direcionados e decisões políticas que escolhem vencedores e perdedores. Isso não é livre mercado. Isso é privilégio institucionalizado.

A economia austríaca chama atenção justamente para esse fenômeno. Quando o governo passa a controlar incentivos, benefícios fiscais e vantagens econômicas, inevitavelmente surgem grupos que dedicam mais energia a capturar esses privilégios do que a criar riqueza real. Economistas chamam isso de busca por renda política — quando prosperar depende mais da proximidade com o poder do que da produtividade.

E esse tipo de sistema tende a produzir exatamente o que vemos com frequência: concentração de poder, distorções econômicas e uma elite cada vez mais distante da realidade da maioria.

Por isso, talvez o verdadeiro abismo do Amazonas não esteja apenas entre Manaus e o interior. Ele está entre quem vive próximo do poder e quem vive distante dele — inclusive dentro da própria capital.

Sem mudanças estruturais que reduzam esse sistema de privilégios, continuaremos repetindo ciclos econômicos que enriquecem poucos e deixam muitos apenas observando o desenvolvimento passar. Foi assim no passado. Está sendo assim no presente. Será assim no futuro?

E isso nos leva ao ponto mais preocupante. Se nada mudar de verdade, nas próximas eleições não escolheremos um novo caminho para o Amazonas. Estaremos apenas assistindo ao já tradicional revezamento de raposas que dizem cuidar do nosso galinheiro. Talvez, essa seja a verdadeira dívida invisível do Amazonas: não a distância entre a capital e o interior, mas a distância entre o poder e o povo.

Bibliografia HANAN, Samuel; PINHO, Jorge Henrique de Freitas. A dívida invisível do Amazonas. Manaus: Valer, 2026. MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.